domingo, maio 18

Introspecção

Há pessoas que não se cansam de falar de si próprias. São capazes de passar horas infinitas nesse exercício. Falam do que querem, do que são, do que foram, do que sonham, do que fazem, dos problemas com que se deparam, do que desejam, do que abominam, do que lhes confunde, do que lhes conforta, das certezas que têm, dos medos, dos sonhos etc... São espectadores da sua própria vida. Sentadas de camarote, são capazes de desconstruir todo o seu mundo com um à vontade assustador.

Mergulhar até ao fundo de mim pode ser asfixiante. Eu tenho uma tremenda dificuldade em falar de mim. Não das coisas rotineiras, fúteis, passageiras, mas da minha essência. Falar, não escrever. A oralidade lixa-me tantas vezes. O contacto visual intimida-me e invariavelmente fico retraída. Verbalizar o que sou, desmembrar em sonoros vocábulos a minha natureza é uma tarefa heróica e poucas vezes alcançada.

Este charco tornou-se gradualmente um escape. O local ideal para expelir devaneios. Um exercício de higiene íntima.
Às vezes escrevo para mim. Outras, para os que por cá passam. Às vezes releio o que escrevi, e é desconcertante. Porque é real.
Eu acredito que a escrita tem um efeito libertador e terapêutico. Pelo menos comigo. Sempre teve. Se acorrento as palavras na garganta, o mesmo já não se passa com uma esferográfica, ou um teclado. As mais belas palavras de amor, nunca as proferi. Escrevi-as ao destinatário.
Eu escrevo em silêncio. Abstraio-me de todos os sons e escrevo. Gosto de acreditar que as minhas palavras são um farol. A luz no amontoado de sombras que eu sou. Um farol luminoso e em permanente alerta, para que os barcos, que são as pessoas que por cá passam, possam navegar até mim mais facilmente.

11 criaturas afundaram esta pérola:

Vieille Canaille disse...

E falar alto quando estás só? Costuma acontecer?! Isso acontece-me cada vez mais... como se estivesse me tornando esquizofrénico... torna-se assustador, quando sinto perder o controlo, que é quase como entrar numa discussão comigo próprio!!

blueminerva disse...

Falo alto quando estou irritada. E geralmente é pró insulto. Tipo, grito burra ou otária ou idiota. Uma descarga molecular momentânea. Depois acalmo-me... eu por norma sou serena.
Um abraço

Zb disse...

somos todos um bocado assim, digo eu. Falo por mim que também nada de mim consigo dizer, mas no meu caso é ainda mais complicado, já que escrever não é o meu forte, fazer desenhos também não, se pudesse me exprimir por números, tabelas e gráficos, nesse caso tinha a vida simplificada.
o que vale é que existe sempre alguma pessoa que consegue ler os nossos pensamentos e adivinhar aquilo que realmente somos, sem que tenhamos de lhe dizer nada...

abraço

macaw disse...

ora bem-vinda ao clube! falar sobre mim não o é meu forte, já estou como a outra com o problema de expressão, na maior parte das vezes acabo por ser contraditória e, ZB, precisava de ter mais pessoas assim que conseguissem ler os meus pensamentos!

bjokitas minha linda!
eu voltarei quando a poeira assentar...
é temporário, não há nada que dure para sempre! ;)

Rocket disse...

Um dos melhores textos que por aqui provei no meu mui recente historial de visitas a este teu oceano.
Para ler e reler. Que foi o que fiz...e que mesmo cansado, não me apetece deixar de fazer...

beijinhos

lampâda mervelha disse...

E tudo isso é puramente real e verdadeiro como dizes. A purga do bem e do mal, os venenos e doces fluídos, os meus e os partilhados. O silêncio à superfície não mostra o constante ruído da minha mente. Ecoa, rasga, a forma audível das palavras entre o pensamento e a prática de escrever. Apenas sou eu e os outros que sou, nada mais que isso. Por norma acompanha-me sempre uma banda sonora feita de uma ou mais músicas, ajuda-me no caminho. No fim instala-se um pequeno vazio e tudo fica melhor.

Escreve! Escreve!

MARNUNEFREI disse...

Have you been reading the “book”, the essence of my soul!!!

Sorrisos em Alta disse...

Também me identifico com o texto. À excepção da parte da oralidade me ter lixado alguma vez...
;o)

Su disse...

catarse.....na escrita......obvia


jocas maradas

blueminerva disse...

ADENDA
Só faz sentido estar na blogosfera para chegar até às pessoas às quais possivelmente eu nunca chegaria se não fosse através de um blogue. O propósito é interagir.
Um blogger tem tanto de exibicionista como de voyerista. E quem disser que não, mente!

Um arquipélago de abraços

Rute disse...

=D É isso mesmo! É para isso que criamos o blog! Para nos despejarmos! Para nos sentirmos bem! =D