quinta-feira, junho 7

Uma madrugada “lynchiana” - Lost Highway

Nunca, em hipótese alguma vejam um filme de David Lynch sozinhos.

Ontem à noite vi “Lost Highway”. Eram 3 horas da manhã quando desliguei a televisão. Já era tarde, e tentei dormir. Virei para um lado, virei para outro e... nada! Andei às voltas na cama, a rever o filme do princípio ao fim, na tentativa de montar o puzzle. Pois é... deveria ter visto o filme a outras horas e acompanhada, porque a obra de Lynch é tão desconcertante que torna-se impossível dormir após o seu visionamento. Fica entranhada no cérebro. Exige troca de argumentos. A obra de David Lynch é digna de uma longa tertúlia.
Definir David Lynch não é fácil. Diria que o realizador norte-americano é um verdadeiro explorador dos mais recônditos lugares da mente humana e um paradigma da generosidade cinematográfica, porque os seus filmes deixam de lhe pertencer – após o visionamento – e passam a ser nossos. É isso que o torna ímpar no mundo do cinema.
A obra do estranho realizador é fascinante, porque os seus argumentos escondem narrativas paralelas. Para entender a obra de Lynch, é necessário desmontar o filme, analisar pormenorizadamente a narrativa e voltar a montar. Não é fácil, e quem não está pronto para aceitar o convite, fica à porta do labirinto.


“Lost Highway”

Fred Madison (Bill Pullman) é um músico de jazz que suspeita da infidelidade da sua mulher Renee (Patricia Arquette).
O casal começa a receber vídeos que mostram a fachada de sua casa e, depois, o interior do quarto mostrando-os a dormir.
Quando Renee é assassinada, Fred torna-se o principal suspeito do crime, e é condenado por homicídio em primeiro grau. A partir daí o filme entra numa sucessão de interrogações, equívocos e enigmas, carregado de simbolismos, deixando o espectador suspenso, à espera de soluções que, ou não são óbvias, ou nem sequer existem.

6 criaturas afundaram esta pérola:

Shinobi disse...

O "Estrada Perdida" tem para mim uma das cenas melhores da história do cinema.

Falo do amor escaldante no deserto, ao som da divina música "Song to a Siren" dos "This Mortal Coil", e a frieza e crueldade de Patricia Arquette quando se baixa e diz ao ouvido do jovem "You'll never get me"!

A mim deixou-me sem palavras...

JDC disse...

Depois de ver o Mulholland Drive, fiquei com a sensação que devia ter fumado umas "coisas". David Lynch é demasiado caótico, sucede-se numa corrente de sentimentos e ideias que, mesmo que fossem nossos, fariam pouco sentido. É por isso que os filmes passam a ser nossos, pois não há interpretação inerente ao filme. Há, isso sim, a impressão que nos deixa, os momentos onde nos revemos e uma terrível, terrível!, dor de cabeça!

blueminerva disse...

Caro Shinobi:
Concordo inteiramente contigo no que diz respeito à cena do deserto. Mas... meu Deus!!!! São tantas as cenas gloriosas em "Estrada Perdida" que tenho imensa dificuldade em nomear a que mais gostei. Talvez aquela, em que se vê a cabana a arder em sentido rebobinado, que exemplifica de maneira brutal a tentativa de Fred conter a raiva. Uma metáfora brilhante.
Cumptos

blueminerva disse...

Caro Jcd:
Os filmes de Lynch são realmente caóticos, mas Lynch não faz mais do que explorar as entranhas do ser humano... todos nós temos um lado negro e perverso. O que acontece, na maioria dos casos, é que a maioria de nós controla e nunca materializa o que há de pior em nós. Lynch é um mestre porque mostra, como poucos realizadores, os conflitos íntimos levados ao extremo.
Cumptos

Anónimo disse...

já se passaram mts anos mas ainda hoje acordo a meio da noite e pergunto-me: Quem matou a laura palmer?

blueminerva disse...

Ao anónimo

Foi o papá que matou a Laura.
Votos de noites tranquilas.