Uma salva de palmas para Mário Contumélias, professor universitário, pela autoria do texto que se segue:
Doutores e engenheiros...
«O sr. João está bem na vida. Merece-o porque é um exemplo de empreendedor bem sucedido. Vindo dos arredores rurais da Grande Lisboa, tomou de trespasse uma pequena frutaria no bairro onde moro. E foi vê-lo crescer. Em poucos anos, diversificou o negócio e tem já uma boa meia dúzia de lojas e vasta clientela. Visão, capacidade de trabalho e de organização, criteriosa selecção do pessoal, qualidade de serviço e produtos explicam o sucesso. Mas não só. Tenho para mim que um pormenor ajudou o êxito dos primeiros anos.
Sabedor que cá no bairro moram muitos licenciados e gestores, o sr. João decidiu, desde a primeira hora, que todos os seus clientes seriam tratados por "doutor" e "doutora", consoante o género. Neste país que, por muito que já tenha de cosmopolita, ainda guarda significativos restos de provincianismo, nenhum cliente se queixou. E o tratamento mantém-se até hoje.
Em Portugal, ostentar o "dr." confere estatuto e não parece haver quem se dispense de o juntar ao nome, mal atinge uma posição relevante no plano profissional ou económico. Somos um país de "doutores" e "engenheiros", para o bem e para o mal.
Vem tudo isto a propósito da polémica em torno da licenciatura de José Sócrates. Uma via-sacra de tempo perdido com suspeições vazias de conteúdo, já que ninguém foi capaz de dizer que o primeiro-ministro não é licenciado, pelo simples facto de que o é efectivamente. Pode questionar-se a riqueza do currículo, a escolha da universidade, a frequência com que ia às aulas, o funcionamento dos serviços administrativos das instituições envolvidas, mas não mais do que isso.
O único facto digno de nota remete para o tal provincianismo que o sr. João tão bem utilizou na sua frutaria. O jovem Sócrates, então deputado, terá "deixado" publicar um currículo que o fazia licenciado antes da licenciatura, quiçá por "esperteza saloia" ou estratégia comunicacional, de um qualquer mais zeloso assessor. Não é bonito, mas não justifica o desatino do dr. Marques Mendes, que quer uma entidade independente a averiguar o percurso académico do primeiro-ministro.
O lamentável é que tudo isto espelha o triste estado da Nação, a fraquíssima qualidade da Oposição, e as tendências suicidas de algum jornalismo que por cá se vai fazendo. Mais, muito mais merecedora de aprofundada discussão do que esta tolice em torno da licenciatura de Sócrates é a sentença do Supremo Tribunal de Justiça, que condenou o jornal "Público" por ter escrito a verdade acerca das dívidas fiscais do Sporting, argumentando que tal lesou "o bom nome e reputação" do clube. Ou a condenação da "Notícias Magazine", na 3.ª Vara Cível de Lisboa, por ter publicado "factos verdadeiros" e com "interesse público", mas em termos que o juiz achou excessivos. Não é preciso ser jurista para entender que estamos face a duas sentenças preocupantes para o futuro da liberdade de Imprensa em Portugal.
Cabe aos jornalistas noticiar factos verdadeiros e de interesse público. Impedi-los de o fazer é esvaziar o seu papel social e ferir gravemente a democracia. Mas publicar suspeições é dar argumentos a quem os quer amordaçados.
E a liberdade de Imprensa é uma questão infinitamente mais importante e merecedora de discussão pública do que as irregularidades não provadas, que envolveriam a licenciatura de Sócrates. Portanto, doutores ou engenheiros, deixemos Sócrates em paz e vamos ao que interessa. Lápis azul, nunca mais!»
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Não se iluda... Este blog é somente um exercício de higiene íntima


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